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Dr. Rafael Godoy | Hiperidrose e MiraDry BH

Dr. Rafael Godoy, especialista em disbiose axilar e bromidrose em Belo Horizonte
ESCRITO E REVISADO POR

Dr. Rafael Godoy Castro Barbosa

Cirurgião Torácico · CRM-MG 45792 · RQE 38962
  • ✓ Referência em bromidrose axilar em Belo Horizonte
  • ✓ Abordagem baseada na microbiota axilar, não apenas no suor
  • ✓ Avaliação individualizada antes de qualquer indicação
Consultório: R. Fernandes Tourinho, 264 — Sala 401, Savassi, BH/MG  |  📅 Última revisão: julho de 2026
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📋 NOSSA ABORDAGEM CLÍNICA

Disbiose axilar: o problema não é sujeira, é qual bactéria vive na sua axila.

A bromidrose é frequentemente tratada como falha de higiene — pelo paciente, pela família e, muitas vezes, pelo próprio médico. A literatura mostra outra coisa: o odor axilar depende menos de quanto você lava e mais de qual comunidade bacteriana colonizou a sua axila.

  • Axila com predomínio de Staphylococcus epidermidis (odor baixo ou ausente)
  • Axila com predomínio de Corynebacterium (odor intenso e persistente)

Entender em qual desses cenários o paciente está muda completamente a conduta. Por isso a consulta começa por uma conversa longa, e não por uma prescrição.

Poucas queixas carregam tanta vergonha quanto o odor axilar. O paciente com bromidrose costuma chegar ao consultório depois de anos tomando dois banhos por dia, trocando de desodorante a cada mês, esfregando a axila até irritar a pele — e ouvindo, de quem convive com ele, que o problema seria falta de higiene.

É uma acusação injusta, e a ciência dos últimos quinze anos mostra por quê. A bromidrose não é um problema de sujeira: é um problema de ecologia microbiana — um quadro de disbiose axilar. Este artigo explica o que a pesquisa sobre microbiota axilar descobriu — incluindo um achado incômodo sobre o próprio antitranspirante que muita gente usa para tentar resolver o problema.

O suor fresco não tem cheiro

Resposta rápida: O suor recém-secretado é praticamente inodoro. As moléculas produzidas pelas glândulas apócrinas — ácidos graxos de cadeia longa, aminoácidos sulfurados e compostos ligados a proteínas — são grandes demais para evaporar e chegar ao nariz. O odor só aparece quando bactérias da pele quebram essas moléculas em fragmentos menores e voláteis.

Esta é a primeira coisa que costumo explicar em consulta, e quase sempre é uma surpresa: suor, sozinho, não cheira.

As glândulas apócrinas — concentradas nas axilas, e diferentes das écrinas, que regulam temperatura — secretam um material rico em ácidos graxos de cadeia longa, aminoácidos contendo enxofre e hormônios. Todas essas moléculas têm algo em comum: são grandes e não voláteis. Elas simplesmente não sobem até o nariz de ninguém.

O que transforma esse material inodoro em mau cheiro é a ação bacteriana. Cada espécie que habita a axila carrega um conjunto próprio de enzimas, e são essas enzimas que quebram as moléculas grandes em compostos pequenos e voláteis — ácidos graxos de cadeia curta ramificada, derivados de esteroides e sulfanilalcanóis. São eles que produzem o cheiro característico.

A consequência lógica é direta: se o odor depende da bactéria, então duas pessoas que suam exatamente a mesma quantidade podem ter cheiros completamente diferentes. E é exatamente isso que se observa na prática.

Disbiose axilar: Staphylococcus ou Corynebacterium

Resposta rápida: A microbiota axilar humana se organiza basicamente em dois grupos. No primeiro, predomina o Staphylococcus epidermidis, associado a odor baixo ou ausente. No segundo, predomina o Corynebacterium, o principal produtor de mau odor axilar. Quanto maior a proporção de Corynebacterium, mais intenso o odor. Cerca de 60 a 70% das pessoas estão no primeiro grupo; 30 a 40% no segundo.

Em 2013, o pesquisador belga Chris Callewaert analisou a axila de 53 pessoas saudáveis com sequenciamento genético. O resultado foi notável pela clareza: a microbiota axilar humana não se distribui num espectro contínuo — ela se organiza em dois agrupamentos bem definidos.

O grupo Staphylococcus (odor baixo)

Cerca de 60 a 70% das pessoas têm axilas dominadas por Staphylococcus, principalmente o S. epidermidis. Essas bactérias produzem pouco ou nenhum odor. Mais interessante ainda: o S. epidermidis parece inibir ativamente o crescimento de outras bactérias, provavelmente por mecanismos de comunicação química entre células. Ele não é só inofensivo — ele funciona como um guardião do território.

O grupo Corynebacterium (odor intenso)

Nos outros 30 a 40%, quem domina é o Corynebacterium — e a relação com o odor é direta: quanto mais corinebácterias, mais forte o cheiro. Pesquisas posteriores identificaram os principais responsáveis pelo odor axilar típico: Corynebacterium tuberculostearicum, Staphylococcus hominis e espécies do gênero Anaerococcus.

O detalhe que fecha o raciocínio: as corinebácterias parecem crescer justamente quando o S. epidermidis não está presente em quantidade dominante. É uma disputa de território. Quando o guardião recua, o produtor de odor avança.

Isso é o que se chama, em outras áreas da medicina, de disbiose: não a presença de um germe invasor, mas o desequilíbrio de uma comunidade que deveria conviver em harmonia.

O paradoxo do antitranspirante

Resposta rápida: Em um estudo de 2014, voluntários interromperam o uso de antitranspirante por um mês. Durante a pausa, as bactérias associadas a odor baixo (Staphylococcus) aumentaram e as produtoras de odor (Corynebacterium) recuaram. Ao retomar o antitranspirante, o padrão se inverteu novamente. Os autores concluem que os cosméticos axilares alteram a comunidade microbiana e podem estimular bactérias produtoras de odor.

Aqui chegamos ao achado mais desconfortável desta literatura — e o mais útil de compreender.

Callewaert e colaboradores acompanharam nove voluntários que usavam desodorante ou antitranspirante diariamente e pediram que parassem por um mês — tempo suficiente para toda a epiderme se renovar. Depois, retomaram o uso. A microbiota foi analisada antes, durante e depois.

O que aconteceu nos usuários de antitranspirante foi consistente nos quatro participantes:

  • Ao parar o antitranspirante: os Staphylococcus (associados a odor baixo) aumentaram, e as Actinobactérias — grupo ao qual pertence o Corynebacterium — diminuíram, chegando a ficar indetectáveis.
  • Ao retomar o antitranspirante: houve enriquecimento claro de Actinobactérias, enquanto os Staphylococcus recuaram fortemente.

Os próprios autores descrevem o aumento de Actinobactérias induzido pelo antitranspirante como uma “situação desfavorável em relação ao desenvolvimento de odor corporal”, e concluem que os cosméticos axilares podem estimular bactérias produtoras de odor.

A explicação proposta é ecológica. Os antimicrobianos de amplo espectro presentes nesses produtos não eliminam apenas as bactérias produtoras de odor — eles atingem também o S. epidermidis, que era quem mantinha o território ocupado. Com o guardião enfraquecido, o nicho fica aberto, e as espécies mais resistentes (justamente as corinebácterias) colonizam o espaço vago.

Uma leitura honesta deste dado: isto não significa que você deva jogar fora o desodorante. O estudo é pequeno (nove pessoas) e não testou desfecho clínico de bromidrose. O que ele sugere é algo mais sutil e mais importante: a estratégia de “matar todas as bactérias da axila” pode ser contraproducente a longo prazo. O caminho promissor não é esterilizar — é reequilibrar.

Esse raciocínio ajuda a entender uma queixa que ouço com frequência no consultório: “quanto mais eu lavo e passo produto, pior parece ficar”. O paciente não está imaginando coisas.

Por que homens têm mais odor axilar que mulheres

Resposta rápida: Não é higiene: é microbiota. No estudo de 2013, 87% das mulheres tinham axilas dominadas por Staphylococcus (odor baixo), enquanto os homens se distribuíam muito mais no grupo Corynebacterium (odor intenso). Diferenças de pelos, espessura da pele, hormônios e produção de sebo criam ambientes distintos, que favorecem comunidades bacterianas distintas.

Uma das descobertas mais eloquentes do estudo de 2013 diz respeito ao sexo. Entre as mulheres analisadas, 87% pertenciam ao grupo Staphylococcus — o de odor baixo. Os homens se distribuíam muito mais no grupo Corynebacterium.

Os autores foram cuidadosos ao investigar o que não explicava a diferença: o agrupamento não se correlacionou com idade, nacionalidade, uso de desodorante, depilação ou hábitos de higiene. O que explica são diferenças anatômicas e fisiológicas — pelos, espessura da pele, hormônios, sebo e características do suor — que criam ambientes diferentes, favoráveis a comunidades bacterianas diferentes.

Vale reter esse ponto: hábitos de higiene não determinaram a qual grupo a pessoa pertencia. A axila de quem lava mais não é a axila que cheira menos.

A prova definitiva de que o problema é bacteriano

Resposta rápida: Pesquisadores transferiram a microbiota axilar de irmãos sem odor para irmãos com odor axilar intenso. O resultado foi redução do mau odor nos receptores, com axilas mais ricas em Staphylococcus e mais pobres em Corynebacterium. Trocar a bactéria mudou o cheiro — sem mudar nada na higiene.

Se a tese da disbiose estiver correta, então trocar a comunidade bacteriana deveria mudar o odor. Foi exatamente isso que os pesquisadores testaram.

Em ensaios registrados, a microbiota axilar de irmãos sem odor foi transferida para irmãos com odor axilar significativo. O desfecho: redução do mau odor nos receptores, com a axila passando a apresentar mais Staphylococcus e menos Corynebacterium. Estudos independentes aplicando cepas de S. epidermidis também mostraram redução do odor axilar.

Nenhum dos participantes mudou hábitos de banho. Mudou-se a bactéria — e o cheiro mudou junto.

É importante dizer com clareza: transplante de microbiota axilar ainda é pesquisa, não tratamento disponível em consultório. Não ofereço esse procedimento, e ninguém no Brasil oferece de forma validada. O valor desses estudos, para a prática de hoje, é outro: eles confirmam onde está o problema. E, sabendo onde está o problema, as condutas disponíveis passam a fazer muito mais sentido.

Se o problema é a bactéria, por que tratar a glândula?

Resposta rápida: Porque a glândula fornece o substrato. As bactérias produtoras de odor dependem da secreção apócrina como matéria-prima. Reduzir de forma permanente as glândulas apócrinas da axila remove o alimento que sustenta essa população — e, com isso, o odor.

Se o odor é produzido por bactérias, por que os tratamentos eficazes agem sobre a glândula? Porque a relação entre as duas coisas é de alimento e consumidor. As corinebácterias não produzem odor a partir do nada: elas metabolizam a secreção apócrina. Sem substrato, não há fermentação — e sem fermentação, não há compostos voláteis.

Isso explica por que há duas frentes legítimas de tratamento:

  • Reduzir o substrato — agir sobre as glândulas apócrinas, retirando a matéria-prima da reação.
  • Modular a microbiota — deslocar a comunidade bacteriana do perfil Corynebacterium para o perfil Staphylococcus. Hoje isso ainda é território de pesquisa, mas é para onde a área caminha.

A tecnologia de micro-ondas (miraDry) atua na primeira frente: reduz de forma permanente as glândulas apócrinas tratadas, que não se regeneram. Na prática, remove a fonte de substrato de que as bactérias produtoras de odor dependem.

Discuto todas as opções disponíveis — das mais conservadoras às mais invasivas, com indicações, limites e efeitos colaterais — no artigo completo sobre bromidrose axilar: causas, microbiota e tratamentos.

📚 Referências científicas

Este conteúdo foi escrito com base em literatura científica revisada por pares.

  1. Callewaert C, Kerckhof FM, Granitsiotis MS, Van Gele M, Van de Wiele T, Boon N. Characterization of Staphylococcus and Corynebacterium clusters in the human axillary region. PLoS One. 2013;8(8):e70538. DOI
  2. Callewaert C, Hutapea P, Van de Wiele T, Boon N. Deodorants and antiperspirants affect the axillary bacterial community. Arch Dermatol Res. 2014;306(8):701-710. DOI
  3. Callewaert C, Lambert J, Van de Wiele T. Towards a bacterial treatment for armpit malodour. Exp Dermatol. 2017;26(5):388-391.

As informações neste artigo são de natureza educativa e não substituem a consulta médica.

Perguntas Frequentes sobre Bromidrose e Higiene

Bromidrose é falta de higiene?

Não. Os estudos de microbiota axilar mostram que o perfil bacteriano de cada pessoa não se correlaciona com hábitos de higiene, uso de desodorante ou depilação. O odor depende de qual comunidade bacteriana colonizou a axila: axilas dominadas por Staphylococcus epidermidis produzem pouco odor; axilas dominadas por Corynebacterium produzem odor intenso. Pessoas com higiene impecável podem ter bromidrose.

Tomar mais banho resolve a bromidrose?

Não, e pode ser contraproducente. A lavagem repetida com sabões e detergentes reduz a carga e a diversidade bacteriana da axila, favorecendo os gêneros mais resistentes, entre eles as próprias corinebactérias produtoras de odor. O objetivo não é esterilizar a axila, e sim reequilibrar sua ecologia microbiana.

Antitranspirante pode piorar o odor axilar?

Há evidência de que sim, a longo prazo. Em estudo de 2014, o uso de antitranspirante aumentou a população de Actinobactérias (grupo do Corynebacterium), descrito pelos autores como situação desfavorável para o odor corporal. Ao interromper o uso por um mês, os Staphylococcus associados a odor baixo voltaram a predominar. O estudo é pequeno (nove participantes) e não avaliou desfecho clínico de bromidrose.

Bromidrose é a mesma coisa que hiperidrose?

Não. Hiperidrose é excesso de quantidade de suor; bromidrose é odor axilar. Uma pessoa pode ter as duas, apenas uma, ou nenhuma. A hiperidrose axilar relaciona-se sobretudo às glândulas écrinas, enquanto o odor depende da secreção das glândulas apócrinas metabolizada por bactérias.

Por que homens costumam ter mais odor axilar?

Por diferença de microbiota, não de higiene. No estudo de 2013, 87% das mulheres tinham axilas dominadas por Staphylococcus (odor baixo), enquanto os homens se concentravam mais no grupo Corynebacterium (odor intenso). Diferenças de pelos, espessura da pele, hormônios e produção de sebo criam ambientes distintos.

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