
Dr. Rafael Godoy Castro Barbosa
- ✓ Referência em bromidrose axilar em Belo Horizonte
- ✓ Abordagem baseada na microbiota axilar, não apenas no suor
- ✓ Avaliação individualizada antes de qualquer indicação
Disbiose axilar: o problema não é sujeira, é qual bactéria vive na sua axila.
A bromidrose é frequentemente tratada como falha de higiene — pelo paciente, pela família e, muitas vezes, pelo próprio médico. A literatura mostra outra coisa: o odor axilar depende menos de quanto você lava e mais de qual comunidade bacteriana colonizou a sua axila.
- Axila com predomínio de Staphylococcus epidermidis (odor baixo ou ausente)
- Axila com predomínio de Corynebacterium (odor intenso e persistente)
Entender em qual desses cenários o paciente está muda completamente a conduta. Por isso a consulta começa por uma conversa longa, e não por uma prescrição.
Poucas queixas carregam tanta vergonha quanto o odor axilar. O paciente com bromidrose costuma chegar ao consultório depois de anos tomando dois banhos por dia, trocando de desodorante a cada mês, esfregando a axila até irritar a pele — e ouvindo, de quem convive com ele, que o problema seria falta de higiene.
É uma acusação injusta, e a ciência dos últimos quinze anos mostra por quê. A bromidrose não é um problema de sujeira: é um problema de ecologia microbiana — um quadro de disbiose axilar. Este artigo explica o que a pesquisa sobre microbiota axilar descobriu — incluindo um achado incômodo sobre o próprio antitranspirante que muita gente usa para tentar resolver o problema.

O suor fresco não tem cheiro
Resposta rápida: O suor recém-secretado é praticamente inodoro. As moléculas produzidas pelas glândulas apócrinas — ácidos graxos de cadeia longa, aminoácidos sulfurados e compostos ligados a proteínas — são grandes demais para evaporar e chegar ao nariz. O odor só aparece quando bactérias da pele quebram essas moléculas em fragmentos menores e voláteis.
Esta é a primeira coisa que costumo explicar em consulta, e quase sempre é uma surpresa: suor, sozinho, não cheira.
As glândulas apócrinas — concentradas nas axilas, e diferentes das écrinas, que regulam temperatura — secretam um material rico em ácidos graxos de cadeia longa, aminoácidos contendo enxofre e hormônios. Todas essas moléculas têm algo em comum: são grandes e não voláteis. Elas simplesmente não sobem até o nariz de ninguém.
O que transforma esse material inodoro em mau cheiro é a ação bacteriana. Cada espécie que habita a axila carrega um conjunto próprio de enzimas, e são essas enzimas que quebram as moléculas grandes em compostos pequenos e voláteis — ácidos graxos de cadeia curta ramificada, derivados de esteroides e sulfanilalcanóis. São eles que produzem o cheiro característico.
A consequência lógica é direta: se o odor depende da bactéria, então duas pessoas que suam exatamente a mesma quantidade podem ter cheiros completamente diferentes. E é exatamente isso que se observa na prática.
Disbiose axilar: Staphylococcus ou Corynebacterium
Resposta rápida: A microbiota axilar humana se organiza basicamente em dois grupos. No primeiro, predomina o Staphylococcus epidermidis, associado a odor baixo ou ausente. No segundo, predomina o Corynebacterium, o principal produtor de mau odor axilar. Quanto maior a proporção de Corynebacterium, mais intenso o odor. Cerca de 60 a 70% das pessoas estão no primeiro grupo; 30 a 40% no segundo.
Em 2013, o pesquisador belga Chris Callewaert analisou a axila de 53 pessoas saudáveis com sequenciamento genético. O resultado foi notável pela clareza: a microbiota axilar humana não se distribui num espectro contínuo — ela se organiza em dois agrupamentos bem definidos.
O grupo Staphylococcus (odor baixo)
Cerca de 60 a 70% das pessoas têm axilas dominadas por Staphylococcus, principalmente o S. epidermidis. Essas bactérias produzem pouco ou nenhum odor. Mais interessante ainda: o S. epidermidis parece inibir ativamente o crescimento de outras bactérias, provavelmente por mecanismos de comunicação química entre células. Ele não é só inofensivo — ele funciona como um guardião do território.
O grupo Corynebacterium (odor intenso)
Nos outros 30 a 40%, quem domina é o Corynebacterium — e a relação com o odor é direta: quanto mais corinebácterias, mais forte o cheiro. Pesquisas posteriores identificaram os principais responsáveis pelo odor axilar típico: Corynebacterium tuberculostearicum, Staphylococcus hominis e espécies do gênero Anaerococcus.
O detalhe que fecha o raciocínio: as corinebácterias parecem crescer justamente quando o S. epidermidis não está presente em quantidade dominante. É uma disputa de território. Quando o guardião recua, o produtor de odor avança.
Isso é o que se chama, em outras áreas da medicina, de disbiose: não a presença de um germe invasor, mas o desequilíbrio de uma comunidade que deveria conviver em harmonia.
O paradoxo do antitranspirante
Resposta rápida: Em um estudo de 2014, voluntários interromperam o uso de antitranspirante por um mês. Durante a pausa, as bactérias associadas a odor baixo (Staphylococcus) aumentaram e as produtoras de odor (Corynebacterium) recuaram. Ao retomar o antitranspirante, o padrão se inverteu novamente. Os autores concluem que os cosméticos axilares alteram a comunidade microbiana e podem estimular bactérias produtoras de odor.
Aqui chegamos ao achado mais desconfortável desta literatura — e o mais útil de compreender.
Callewaert e colaboradores acompanharam nove voluntários que usavam desodorante ou antitranspirante diariamente e pediram que parassem por um mês — tempo suficiente para toda a epiderme se renovar. Depois, retomaram o uso. A microbiota foi analisada antes, durante e depois.
O que aconteceu nos usuários de antitranspirante foi consistente nos quatro participantes:
- Ao parar o antitranspirante: os Staphylococcus (associados a odor baixo) aumentaram, e as Actinobactérias — grupo ao qual pertence o Corynebacterium — diminuíram, chegando a ficar indetectáveis.
- Ao retomar o antitranspirante: houve enriquecimento claro de Actinobactérias, enquanto os Staphylococcus recuaram fortemente.
Os próprios autores descrevem o aumento de Actinobactérias induzido pelo antitranspirante como uma “situação desfavorável em relação ao desenvolvimento de odor corporal”, e concluem que os cosméticos axilares podem estimular bactérias produtoras de odor.
A explicação proposta é ecológica. Os antimicrobianos de amplo espectro presentes nesses produtos não eliminam apenas as bactérias produtoras de odor — eles atingem também o S. epidermidis, que era quem mantinha o território ocupado. Com o guardião enfraquecido, o nicho fica aberto, e as espécies mais resistentes (justamente as corinebácterias) colonizam o espaço vago.
Uma leitura honesta deste dado: isto não significa que você deva jogar fora o desodorante. O estudo é pequeno (nove pessoas) e não testou desfecho clínico de bromidrose. O que ele sugere é algo mais sutil e mais importante: a estratégia de “matar todas as bactérias da axila” pode ser contraproducente a longo prazo. O caminho promissor não é esterilizar — é reequilibrar.
Esse raciocínio ajuda a entender uma queixa que ouço com frequência no consultório: “quanto mais eu lavo e passo produto, pior parece ficar”. O paciente não está imaginando coisas.

Por que homens têm mais odor axilar que mulheres
Resposta rápida: Não é higiene: é microbiota. No estudo de 2013, 87% das mulheres tinham axilas dominadas por Staphylococcus (odor baixo), enquanto os homens se distribuíam muito mais no grupo Corynebacterium (odor intenso). Diferenças de pelos, espessura da pele, hormônios e produção de sebo criam ambientes distintos, que favorecem comunidades bacterianas distintas.
Uma das descobertas mais eloquentes do estudo de 2013 diz respeito ao sexo. Entre as mulheres analisadas, 87% pertenciam ao grupo Staphylococcus — o de odor baixo. Os homens se distribuíam muito mais no grupo Corynebacterium.
Os autores foram cuidadosos ao investigar o que não explicava a diferença: o agrupamento não se correlacionou com idade, nacionalidade, uso de desodorante, depilação ou hábitos de higiene. O que explica são diferenças anatômicas e fisiológicas — pelos, espessura da pele, hormônios, sebo e características do suor — que criam ambientes diferentes, favoráveis a comunidades bacterianas diferentes.
Vale reter esse ponto: hábitos de higiene não determinaram a qual grupo a pessoa pertencia. A axila de quem lava mais não é a axila que cheira menos.
A prova definitiva de que o problema é bacteriano
Resposta rápida: Pesquisadores transferiram a microbiota axilar de irmãos sem odor para irmãos com odor axilar intenso. O resultado foi redução do mau odor nos receptores, com axilas mais ricas em Staphylococcus e mais pobres em Corynebacterium. Trocar a bactéria mudou o cheiro — sem mudar nada na higiene.
Se a tese da disbiose estiver correta, então trocar a comunidade bacteriana deveria mudar o odor. Foi exatamente isso que os pesquisadores testaram.
Em ensaios registrados, a microbiota axilar de irmãos sem odor foi transferida para irmãos com odor axilar significativo. O desfecho: redução do mau odor nos receptores, com a axila passando a apresentar mais Staphylococcus e menos Corynebacterium. Estudos independentes aplicando cepas de S. epidermidis também mostraram redução do odor axilar.
Nenhum dos participantes mudou hábitos de banho. Mudou-se a bactéria — e o cheiro mudou junto.
É importante dizer com clareza: transplante de microbiota axilar ainda é pesquisa, não tratamento disponível em consultório. Não ofereço esse procedimento, e ninguém no Brasil oferece de forma validada. O valor desses estudos, para a prática de hoje, é outro: eles confirmam onde está o problema. E, sabendo onde está o problema, as condutas disponíveis passam a fazer muito mais sentido.
Se o problema é a bactéria, por que tratar a glândula?
Resposta rápida: Porque a glândula fornece o substrato. As bactérias produtoras de odor dependem da secreção apócrina como matéria-prima. Reduzir de forma permanente as glândulas apócrinas da axila remove o alimento que sustenta essa população — e, com isso, o odor.
Se o odor é produzido por bactérias, por que os tratamentos eficazes agem sobre a glândula? Porque a relação entre as duas coisas é de alimento e consumidor. As corinebácterias não produzem odor a partir do nada: elas metabolizam a secreção apócrina. Sem substrato, não há fermentação — e sem fermentação, não há compostos voláteis.
Isso explica por que há duas frentes legítimas de tratamento:
- Reduzir o substrato — agir sobre as glândulas apócrinas, retirando a matéria-prima da reação.
- Modular a microbiota — deslocar a comunidade bacteriana do perfil Corynebacterium para o perfil Staphylococcus. Hoje isso ainda é território de pesquisa, mas é para onde a área caminha.
A tecnologia de micro-ondas (miraDry) atua na primeira frente: reduz de forma permanente as glândulas apócrinas tratadas, que não se regeneram. Na prática, remove a fonte de substrato de que as bactérias produtoras de odor dependem.
Discuto todas as opções disponíveis — das mais conservadoras às mais invasivas, com indicações, limites e efeitos colaterais — no artigo completo sobre bromidrose axilar: causas, microbiota e tratamentos.
📚 Referências científicas
Este conteúdo foi escrito com base em literatura científica revisada por pares.
- Callewaert C, Kerckhof FM, Granitsiotis MS, Van Gele M, Van de Wiele T, Boon N. Characterization of Staphylococcus and Corynebacterium clusters in the human axillary region. PLoS One. 2013;8(8):e70538. DOI
- Callewaert C, Hutapea P, Van de Wiele T, Boon N. Deodorants and antiperspirants affect the axillary bacterial community. Arch Dermatol Res. 2014;306(8):701-710. DOI
- Callewaert C, Lambert J, Van de Wiele T. Towards a bacterial treatment for armpit malodour. Exp Dermatol. 2017;26(5):388-391.
As informações neste artigo são de natureza educativa e não substituem a consulta médica.
Perguntas Frequentes sobre Bromidrose e Higiene
Bromidrose é falta de higiene?
Não. Os estudos de microbiota axilar mostram que o perfil bacteriano de cada pessoa não se correlaciona com hábitos de higiene, uso de desodorante ou depilação. O odor depende de qual comunidade bacteriana colonizou a axila: axilas dominadas por Staphylococcus epidermidis produzem pouco odor; axilas dominadas por Corynebacterium produzem odor intenso. Pessoas com higiene impecável podem ter bromidrose.
Tomar mais banho resolve a bromidrose?
Não, e pode ser contraproducente. A lavagem repetida com sabões e detergentes reduz a carga e a diversidade bacteriana da axila, favorecendo os gêneros mais resistentes, entre eles as próprias corinebactérias produtoras de odor. O objetivo não é esterilizar a axila, e sim reequilibrar sua ecologia microbiana.
Antitranspirante pode piorar o odor axilar?
Há evidência de que sim, a longo prazo. Em estudo de 2014, o uso de antitranspirante aumentou a população de Actinobactérias (grupo do Corynebacterium), descrito pelos autores como situação desfavorável para o odor corporal. Ao interromper o uso por um mês, os Staphylococcus associados a odor baixo voltaram a predominar. O estudo é pequeno (nove participantes) e não avaliou desfecho clínico de bromidrose.
Bromidrose é a mesma coisa que hiperidrose?
Não. Hiperidrose é excesso de quantidade de suor; bromidrose é odor axilar. Uma pessoa pode ter as duas, apenas uma, ou nenhuma. A hiperidrose axilar relaciona-se sobretudo às glândulas écrinas, enquanto o odor depende da secreção das glândulas apócrinas metabolizada por bactérias.
Por que homens costumam ter mais odor axilar?
Por diferença de microbiota, não de higiene. No estudo de 2013, 87% das mulheres tinham axilas dominadas por Staphylococcus (odor baixo), enquanto os homens se concentravam mais no grupo Corynebacterium (odor intenso). Diferenças de pelos, espessura da pele, hormônios e produção de sebo criam ambientes distintos.